No dia 10 de outubro é o Dia Mundial da Saúde Mental. Em 2026, a Federação Mundial de Saúde Mental escolheu como tema dar voz a quem vive essas experiências. No Brasil, essa voz já aparece nos números do trabalho, e eles são difíceis de ignorar.
Se você tem sentido que a semana não termina, que o corpo chega ao domingo cansado e que a cabeça continua respondendo mensagens mesmo de folga, você não está sozinho. E, pela primeira vez, a lei deixou claro que isso não é só um assunto pessoal.
O que os números mostram
Um levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), feito com dados oficiais do INSS, mostra o tamanho da mudança:
| Afastamentos concedidos pelo INSS | 2023 | 2025 |
|---|---|---|
| Por transtornos mentais (total) | 219.850 | 393.670* |
| Por transtornos de ansiedade | 81.874 | 157.235 |
| Por burnout | 1.760 | 6.985 |
São cerca de 79% a mais em dois anos, e os dados de 2025 ainda vão só até novembro (*). A ansiedade sozinha responde por cerca de 40% desses afastamentos. O burnout, que antes quase não aparecia nas estatísticas, praticamente quadruplicou.
Por trás de cada número há alguém que tentou aguentar mais um pouco. Muitas vezes, o afastamento chega depois de meses de sinais que foram tratados como frescura, falta de organização ou fraqueza.
O que mudou com a NR-1
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) organiza a forma como as empresas gerenciam os riscos do trabalho. Com a Portaria MTE nº 1.419/2024, os fatores de risco psicossociais passaram a fazer parte, de forma explícita, desse gerenciamento. Depois de um ano de caráter educativo, a fiscalização começou em 26 de maio de 2026, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego.
Na prática, a empresa precisa identificar, avaliar e controlar aquilo que, na forma de organizar o trabalho, pode adoecer as pessoas. Alguns exemplos:
- Sobrecarga e prazos incompatíveis com o tempo e os recursos disponíveis.
- Metas excessivas ou cobrança sem margem de decisão.
- Pouca clareza sobre o que se espera de cada pessoa.
- Assédio moral ou sexual, violência e humilhação.
- Falta de apoio da liderança e da equipe.
- Disponibilidade constante, sem tempo real de recuperação.
Um ponto importante: a norma olha para as condições de trabalho, não para um diagnóstico de cada funcionário. Ninguém deve ser obrigado a contar sua história de saúde para que o risco seja reconhecido.
Burnout: o nome certo para um desgaste real
Na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), a Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como um fenômeno ligado ao trabalho, resultado de estresse crônico que não foi bem gerenciado. Ele tem três marcas:
- Exaustão: a energia não volta, mesmo depois de descansar.
- Distanciamento: cinismo, irritação ou indiferença em relação ao trabalho.
- Eficácia em queda: a sensação de render menos, por mais que se esforce.
Se você se reconhece nesses três pontos há semanas, vale ler também sobre os sinais silenciosos do esgotamento.
O que está ao seu alcance agora
A responsabilidade pelos riscos do ambiente é da organização. Ainda assim, enquanto as mudanças acontecem, há passos que protegem você.
- Transforme o cansaço em registro. Por duas semanas, anote o que pesou: volume de tarefas, interrupções, reuniões fora do horário, conversas difíceis. Dados concretos tornam a conversa com a liderança ou o RH mais objetiva, e ajudam você a enxergar padrões.
- Proteja a desconexão. Pesquisas sobre recuperação mostram que desligar mentalmente do trabalho no tempo livre está ligado a mais bem-estar e menos exaustão. Defina um ritual de fim de expediente: fechar o computador, silenciar notificações, trocar de ambiente.
- Negocie prioridades, não resistência. Em vez de “estou sobrecarregado”, tente “para entregar X até sexta, preciso adiar Y. O que é prioridade?”. Pedidos específicos são mais fáceis de atender.
- Regule o corpo antes de responder. Quatro ciclos com a expiração mais longa que a inspiração ajudam a baixar o alerta. Veja como fazer em respiração diafragmática e no artigo sobre o nervo vago.
- Use os canais que existem. RH, CIPA, ouvidoria, sindicato e o próprio serviço de saúde ocupacional. Com a NR-1, relatar riscos psicossociais deixou de ser um pedido de favor.
No fim do dia, escreva três linhas: o que ficou pendente, o primeiro passo de amanhã e uma coisa que deu certo hoje. Fechar o dia no papel ajuda a cabeça a parar de ensaiar o trabalho durante a noite.
Quando procurar ajuda
Procure um psicólogo ou médico se a ansiedade ou o cansaço duram semanas, afetam o sono, o apetite e as relações, causam crises de pânico ou fazem você pensar em desistir de tudo. A OMS recomenda que o cuidado com a saúde mental no trabalho combine mudanças na organização com apoio individual. Os dois caminhos podem andar juntos.
Se surgirem pensamentos de se machucar, procure atendimento de urgência. No Brasil, o CVV atende pelo telefone 188, 24 horas, de graça.
Sua experiência é informação
O tema do Dia Mundial da Saúde Mental deste ano lembra algo simples: quem vive o problema sabe coisas que nenhuma planilha mostra. O cansaço que você sente, as noites mal dormidas, o aperto antes de abrir o e-mail, tudo isso é informação sobre o seu trabalho, não um defeito seu. A nova NR-1 dá um lugar para essa informação. Cuidar de você é também levá-la a sério.



